Laboratório de Manuseio Coreográfico

sustentar a falta

 “Sustentar a falta” sublinha aquilo que aparece na falta, na impossibilidade do fazer, em que a produtividade dá lugar a gestos possíveis entre a sustentação e a desistência.

Como a pandemia tem nos coreografado? Que gestos são necessários, possíveis, urgentes? Que gestos surgem quando a mediação das relações e afetos são as telas?

“Gestos barreiras” é uma série de três vídeo-danças que dão a ver diferentes aspectos do gesto no contexto da pandemia do Covid-19. São três estados de um mesmo tempo organizados em dramaturgias gestuais de listas. Seja pela paragem, pela repetição ou pela imaginação, a série “Gestos Barreiras” é uma aposta na sensorialidade do meio audiovisual como modo de criar experiências sensíveis e possíveis.

 

#SUSTENTAR

o olhar a pausa a cabeça uma postura a perna um gesto a respiração a desistência um argumento a crença o fluxo a passagem do tempo a mentira a verdade alguém uma criança no colo o wi-fi um peso a esperança o próprio peso o desejo a palavra um modo a vida a merda a paz a revolta o amor a escuta o que se disse a presença a risada o humor uma bandeja a sanidade mental o cansaço a amizade as relações uma nota uma contração uma queda um ritmo um impulso uma intenção se sustentar na vida a vitamina D a vontade o ânimo a pausa o tédio a voz a repetição o coração o grito a emoção os braços as asas o voo a caminhada o giro a queda a espiral as vogais uma canção o pensamento uma imagem o movimento a vontade de mover a dança o apoio um impulso uma abertura uma torção uma ponta um close a cena uma conversa o cochicho a escuta a fofoca a risada os dentes o enquadramento

#DESISTIR

da tensão da atenção de resistir de insistir de cair dos outros de sustentar de argumentar de estar da família de um plano da morte da realidade do vício de correr dos impulsos da pausa do amor de malhar de sofrer da dieta do facebook das redes da imagem da fala da fé do querer de esticar o pé de pentear o cabelo da desistência de dormir de se apaixonar da cena de mudar do ataque de si de se defender de expectativas do Brasil de morar no Rio de Janeiro da dívida do encontro de tentar de entender de mudar de chorar de apagar de esquecer de colecionar de lembrar de tentar sozinha da verdade de falar a verdade de ocupar de atender do prazer das ideias do gozo do corpo de depilar de beijar de fingir de um padrão de mover de gritar de sentir do equilíbrio do tônus de uma abertura do antes de uma torção das pontas do observador do enquadramento

#ACASA

“Agora a gente está vivendo isso na carne: o site especific é a nossa casa, o site especific é o nosso corpo. E a gente pode pensar em uma ideia atualizada disso, que seria uma ideia de composição situada. Que é justamente pensar este lugar da performatividade da cena como uma situação. Um entendimento de que o próprio espaço já proporciona fluxos de relação. Pensar neste plano de fundo, na paisagem, e dar para o espaço o status de corpo. E, realmente, estar já é muita coisa.”

#OGESTO

“O gesto é alguma coisa que está sempre mudando na relação com o ambiente, ele está em constante atualização o tempo inteiro, porque ele é sempre uma resposta ao ambiente externo e ao ambiente interno. É alguma coisa que está o tempo inteiro passível de transformação pelos inputs que recebe. A partir do que é o contexto, mas também a partir das respostas que ele gera.”

#HABITARAIMAGEM

Procedimento coreográfico:

 

Emoldurar-se na paisagem; Estar no espaço como coisa; Ceder à pretensão do fazer, apenas estar e deixar que as coisas aconteçam; Ser parte; Também chamamos de paragem; 

Ser vista de outro ponto de vista, mais do que ver.

#OLEMBRAR

“A memória é dinâmica, se atualiza no gesto presente, ou na fala. Ela sempre se atualiza no agora. Cada vez que a gente aciona alguma coisa, no sentido de repetir um gesto, uma ação, lembrar de algo, a gente está atualizando aquilo. A gente aciona mapas e tem várias entradas que podem acionar uma mesma memória. E é justamente por isso que tem coisas que permanecem mais e outras que permanecem menos. Esses mapas são sensório-motores, são criados por informações sensitivas e motoras. (Um mapa) por ser perceptivo e motor, se atualiza sempre pela percepção que leva à ação, a ação que leva à percepção. Até por isso também, uma memória ruim pode se tornar boa, uma memória boa pode se tornar ruim.”

#PÉSMESASDENTESCAIXAS

Um ambiente cheio de coisas; coleções feitas sem querer; não pensamos no quase abarrotamento; estar sem prestar muita moeda ; quero poder ser objetivo também; tensão sem pretensão; o recorte é ilusão e a gente gosta de manusear sentidos; estar em aberto num celeiro de signos; a gente usa e não pensa; a gente recorta e não usa ; o corpo é igual estando ; há camuflagem recíproca entre pés, mesas, dentes, caixas ; não tem tanto peso ; a carga se dispersa ; o ambiente é um contorno para o movimento que quase não se vê; para estar não quero dívidas; de máscaras já me uso muito ; para mover não quero dívida nem gasto ; é uma plasticidade do estar porque sim; estar assim porque sim; porque sim mas com todo o resto que se supõe- sem dolo,  sem taxa.

 

 

(escrita de Rebeca Tadiello a partir de experiência do procedimento coreográfico “Habitar a imagem”, no processo de criação do vídeo 1: “sustentar a falta”. Veja mais sobre em #HABITARAIMAGEM)

#CANTOSBURACOSPAREDES

#CANTOSBURACOSPAREDESNÃOTOCADAS

 

dar a ver o espaço pela presença, sublinhar se misturando com as linhas – unir-se às linhas? tornar-se nova linha? ocupar os espaços vazios, uma mão que aparece inesperadamente num vão antes imperceptível. ocupar lugares incomuns. deitar na pia, apoiar-se, encostar-se, ir até onde as plantas estão. tá escuro por conta da chuva, mas nessa janela bate sempre sol. partes do corpo que aparecem como sendo o próprio corpo porque, em perspectiva, o saco de pão esconde as outras partes, fica só a mão. qual o ponto mais distante que consigo ir, sem sair de quadro? cantos, buracos, paredes não tocadas, superfícies apoiáveis, pequenos espaços. não posso sentar na pia, nem no móvel. queria subir em cima da geladeira.

 

 

 

(escrita de Letícia Trovijo a partir de experiência do procedimento coreográfico “Habitar a imagem”, no processo de criação do vídeo 1: “sustentar a falta”. Veja mais sobre em #habitaraimagem)

#EUNÃOSOUACASA

escrita como coreógrafa do fluxo de movimento. interessante me camuflar à cozinha que tem tanta coisa e tá tão aqui quanto qualquer outro cômodo fiquei pensando que se fosse no meu quarto eu já estaria camuflada pronto pluft você me via agora não vê mais. acho que me sinto uma coisa só COM a casa porque tenho sentido que o tempo é uma coisa só e consequentemente o espaço. o que é engraçado porque como diriam meus amigos, “o tempo nem existe, é um negócio inventado”. Foda essa separação entre as duas coisas, espaço e tempo, porque é comum ter uma conexão forte entre os dois conceitos mas o espaço certamente existe, né? assim como eu. O espaço como afirmação de que eu existo e vice-versa. Eu encosto a pele na parede de tijolinhos e eles esfarelam um pouco no chão e isso prova que porque eu sinto ela é real e porque eu a afeto também sou real. Dá um alívio sentir na pele esses espaços também pra notar a diferença entre eu e eles, pra afirmar que eu não sou a casa ou meu quarto e a camuflagem é mentira.

(escrita de Letícia Trovijo a partir de experiência do procedimento coreográfico “Habitar a imagem”, no processo de criação do vídeo 1: “sustentar a falta”. Veja mais sobre em #habitaraimagem)

#ZOOMOUT

Procedimento coreográfico

  Mover-se distanciando-se de um ponto de vista, revelando camadas do gesto: corpo, ambiente, paisagem. Integrar-se à paisagem/ambiente; Ser parte de um todo; Em relação à tela, repetir um mesmo gesto ou mover-se em fluxo se distanciando, de modo a ressignificar o gesto a cada novo enquadramento de corpo/ambiente. Estado de escuta ao gesto que os estares em determinado ambiente sugere.

#ASAUDADEÉUMASEDE

o quarto meio escuro roupas jogadas dar a ver isso entrar no guarda roupa acho que não mas só se colocar ao lado —— não criar situação —— deixar que ela aconteça

e acontece

 

a sissi já estava lá eu senti assim que entrei no quarto com a câmera que estava expondo uma parte muito íntima de mim nunca tinha mostrado essa parte pro zoom lembrei de quando abracei meus pais depois de muito tempo se vendo distanciados era como se a gente tivesse se beijado na boca uma intimidade muito grande

 

e eu aproveitei pra abraçar todas as manhãs dar bom dia com abraço de quem não se vê há muito tempo era intenso apertado – antes do café talvez à noite – abraçar à toa

 

eu o abraço todos os dias como quem toma água com sede, abraço de quem não se vê há muito tempo, abraço de quem se despede

 

 

a saudade é meio salgada meio doce é molhada é uma sede

(escrita de Camila Venturelli a partir de experiência do procedimento coreográfico "Habitar a imagem", 
no processo de criação do vídeo 1: "sustentar a falta". 

Veja mais sobre em #habitaraimagem)

#EQUIPE

Gestos Barreiras

 

Concepção

Laboratório de Manuseio Coreográfico

 

Direção Geral e Direção de Movimento

Camila Venturelli 

 

Criação, Performance e Captação de vídeo

Camila Venturelli, Letícia Trovijo, Naíra Gascon e Rebeca Tadiello

 

Colaboração Artística

Dani Lima

 

Dramaturgismo

Candice Didonet 

 

Consultoria de vídeo e montagem

Bruna Lessa e Cacá Bernardes / Bruta Flor Filmes

 

Trilha sonora e finalização de som

Julia Teles

 

Arte Gráfica

Maria Carolina Marchi

 

Consultoria Redes Sociais

Vitor Dumont

 

Assessoria de Imprensa

Elaine Calux

 

Produção

Wesley Mendes

 

Direção de Produção

Cristiane Klein / Dionísio Produção

Criação do site

 

Organização de conteúdo

Camila Venturelli

 

Identidade Visual

Maria Carolina Marchi

 

Layout e desenvolvimento

Lidia Ganhito

 

Edição e direção visual dos gifs

Lidia Ganhito

 

Desenvolvimento do site

Luis Mourão e Gianluca Fiorini

Projeto realizado com o apoio do Edital Proac Expresso Lei Aldir Blanc da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo.

#OQUEHÁNAFALTA?

suspensão ausência desistência aperto no peito memória silêncio voz cheiro outras janelas sensações endereço falta não nomes possibilidades saudade possibilidades de preenchimento estrutura índice ideias vontades espaço oportunidade vazio perspectiva luto projeto percepção osso melancolia tempo acúmulo temperatura interrupção desfoque suspenção engasgo gravidade desistências estar atualizações lembrança da presença sobras obras objetos sem uso memórias estrutura objetos que lembram pessoas conteúdo negação aperto no peito não saber liberdade ruído branco verdade ansiedade depressão desmoronamentos pergunta tentativas de sustentação choro outros modos de encontro entre falta de vontade muita vontade pesar gestos sem sentido atropelos gestos com sentido gestos antigos escolhas semântica da negação buracos gestos aprendidos poros ar pelos peso batimentos cardíacos coração tambor inaudível gambiarra esforço abandono do esforço frustração desespero descoberta plantas invenção procura pouco tempo pra muita arte pouca arte pra muito tempo improviso trava liberação presença fluxo mínimo membrana espassa corpo inquieto corpo inventivo pausa preenchimento impossibilidades densidade preguiça pulsação impulsos vaga clareira abertura desaparecimento vão incógnita dificuldade de ver o horizonte procura neblina tentativas de ver o horizonte múltiplas escolhas ouvidação abstinência

#ZOOMIN

Procedimento coreográfico

Mover-se em relação a um ponto de vista, emoldurar e/ou aproximar o(s) gesto(s) enquanto move; Dar relevância a um gesto específico, a um detalhe dele ou uma parte do corpo – em relação à tela, a um ponto de vista ou a si mesma; Em relação à tela, mover-se em fluxo se aproximando e se distanciando da tela emoldurando o(s) gesto(s) enquanto move; Revelar o detalhe